Irracionalizar
O que quer dizer "pensar em alguém"? Quer dizer: esquecê-lo
(sem esquecimento a vida é impossível) e despertar frequentemente
desse esquecimento. Por associação, muitas coisas para o meu
discurso. "Pensar em você" não quer dizer nada mais do que essa
metonímia. Porque, em si, esse pensamento é vazio: eu não te penso;
simplesmente te faço voltar (na mesma proporção que te esqueço). É
essa forma (esse ritimo) que chamo de "pensamento": nada tenho para
te dizer, a não ser que esse nada, é para você que digo.
Chorar
Através das minhas lágrimas, conto uma história, produzo um mito da dor, e a partir de então me acomodo: posso viver com ela, porque, ao chorar, me ofereço um interlocutor empático que recolhe a mais "verdadeira" das mensagens, a do meu corpo e não a da minha língua: 'Que são palavras? Uma lágrima diz muito mais.'
Compreender
Quero mudar de procedimento: não mais desmascarar, não mais interpretar, mas fazer da própria consciência uma droga, e através dela ter acesso à visão sem resto do real, ao grande sonho nítido, ao amor profético.
Conversar
A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos na ponta das palavras.
Endemoninhar
Uma força precisa arrasta minha linguagem para o mal que posso fazer a mim mesmo: o regime motor do meu discurso é a roda livre: minha linguagem aumenta de volume, sem nenhum pensamento tático da realidade. Procuro me fazer mal, expulso a mim mesmo do paraíso, me empenhando em procurar em mim imagens que me podem ferir; e, aberta a ferida, eu a sustento, e a alimento com outras imagens, até que uma outra ferida venha desviar a atenção.
Um Koan budista diz o seguinte:
"O Mestre conserva a cabeça do discípulo sob a água, por muito, muito tempo; pouco a pouco as bolhas se rarificam; no último instante, o Mestre tira o discípulo, o reanima: Quando tiveres desejado a verdade como desejastes o ar, então saberás o que ela é."
Minhas angústias de conduta são fúteis, cada vez mais fúteis, infinitamente fúteis.
Fragmentos de um discurso amoros - Barthes
Constantemente me perguntose é de mais verdade que precisamos.
ResponderExcluirDepende.
ResponderExcluirNinguém precisa de mais ar de São Paulo, por exemplo.